Meus Valores

Alguns valores nos são ensinados pelos pais, pelos mestres e por algumas pessoas que nos encantam. São, mais ou menos, óbvios. Outros são conquistas sofridas, proporcionadas por difíceis obstáculos que a existência nos impõe. E há os submersos, camuflados, escondidos, dos quais não temos consciência.

A minha maneira de ser valoriza a fé, a paciência, a compaixão, a humildade, a persistência, a cultura, a coragem, o trabalho, o otimismo e a felicidade.

A FÉ

Sempre tive fé, ou pelo menos, alguma fé.

A que hoje me acompanha foi conquistada a partir de meu trabalho em plena guerra Irã-Iraque.

O conflito eclodira em 1979. Cheguei a Bagdá dois anos depois. Nosso objetivo era construir uma ferrovia[1] e um trecho de uma auto-estrada, cujos contratos haviam sido assinados antes do confronto bélico. Administrar as obras tinha se tornado muito difícil. As obrigações contratuais somavam mais de um e meio bilhões de dólares. Prazos a cumprir, custos enormes, ameaçadores. Mais de quinze mil funcionários falando 52 línguas diferentes. Já imaginou? A logística de suprimentos, anteriormente prevista pelo golfo persa, tinha sido mudada para Akba, na Jordânia, trazendo muita dificuldade e custos mais elevados. Construir as obras no prazo, dentro do orçamento planejado, naquele deserto de 60 graus, vivenciando o dia-a-dia dos combates no front, que era um desafio, tornara-se uma loucura. Manter o moral elevado, cuidar da família nesse clima, motivar os funcionários sob o medo era uma tarefa muito mais do que difícil. Só a fé poderia operar esse milagre. E, um dia, após três anos trabalhando sob muita tensão, fui à Arábia Saudita em missão comercial. O objetivo era analisar o plano de obras do governo local. Mesmo longe do dia-a-dia, a mente voltava-se para as noticias dos combates e para a família sob aquela ameaça interminável. Um míssil ontem, outro hoje, provavelmente, outro amanhã… escolas arrasadas, habitações destruídas, mortos e feridos aos montes, funerais coletivos, hospitais lotados, milhares de carros de combate  sendo mobilizados e a gente enfrentando problemas técnicos de engenharia, imensas dificuldades administrativas, jurídicas, financeiras, sob um sol escaldante e uma incerteza brutal…Só a fé garantiria a realização daquela missão.

Na solidão de um grande hotel em Jedah, dei uma olhada na lista de filmes disponíveis sobre o aparelho de TV. Pela programação impressa, um sobre a vida de Gandhi[2] estava anunciado. Eu já era seu admirador desde a juventude. Naquela tarde, mergulhei na história daquele homenzinho moreno, enfrentando o enorme desafio que era a libertação da Índia. Ali estava o exemplo que me fortaleceu. Aquele líder obstinado fizera da dificuldade a sua razão de viver. E seu poderoso exemplo me alavancou na maior de todas as minhas conquistas: a fé.

Comecemos com uma analogia.

A matemática, mãe das ciências, é baseada em alguns postulados, que, por serem postulados, são aceitos como verdadeiros, embora, sem demonstração. Não obstante este fato, o conhecimento matemático é válido e universalmente aceito. Similarmente, como os postulados matemáticos, a existência de Deus é aceita por todos os povos de todas as nações.

Segundo Jung[3], a fé é herdada como se herda a cor da pele.

Sem ela seríamos reduzidos a um pedaço de matéria e esta pequenez assusta. Creio que sejamos mais, muito mais do que isso. A fé proporciona à vida uma dimensão maior, que a enobrece e lhe dá sentido. Mobiliza a força interior, imprescindível no enfrentamento de um grande obstáculo!  É o combustível que impulsiona a existência fazendo-a avançar rumo ao infinito!

Conheço duas maneiras de compreendê-la: uma, cristã (e islâmica) e outra, budista.

Os cristãos oram acreditando em uma ajuda superior. Pela maneira budista, a pessoa agradece a oportunidade de enfrentar o desafio que se apresenta. Mas, nada pede. Há que se valer da própria energia que é como uma carga de explosivos. Basta despertá-la tendo a fé como alavanca e uma seqüência de mudanças avançará, primeiro, na mente; depois, no meio em que se vive.

Meus exemplos de fé são dois seres humanos que realizaram o impossível:

Nelson Mandela[4] e Mohandas Gandhi. O africano pôs fim à apartheid após amargar 27 anos de prisão. Gandhi libertou a Índia que representava um terço do império britânico. Dois homens muito fortes. Dois homens de fé e de muito sucesso.

A Compaixão

Esta palavra nada significava para mim. Da religião materna eu entendia a caridade, o perdão e outros valores. Mas, a compaixão?

Entretanto, aos 33 anos a doutrina budista entrou no meu cotidiano por uma dificuldade. Vi-me acometido pela gota, tida como incurável. Pé inchado, mancava ao me locomover, disfarçava enquanto podia… Minha sogra me deu um exemplar da Sutra[5] no qual passei os olhos incrédulos. Mas fui surpreendido pela belíssima filosofia contida em cada palavra. Havia um ensinamento muito denso que me encantou. Diariamente passei a recitá-la, concentrado nos ensinamentos. E minha forma de encarar a vida foi se modificando. As dores foram diminuindo, o pé  passou a tolerar o sapato e, algum tempo depois, vendo-me renascido, atirei no deserto do Iraque um estoque de 500 comprimidos: era o milagre da cura realizado pela mente. Fascinado pela sabedoria ensinada naquela meditação, passei a estudar a doutrina. Passados mais de 20 anos, em visita a uma filha, Aline, interessei-me por um livro do Dalai Lama[6]. Presenteado, mergulhei no pensamento deste ser humano notável.

Compaixão, no sentido budista, significa sentir com o outro. Colocar-se no lugar do outro. Não julgar, pois, quem julga se coloca em posição superior. E entre humanos não há superiores.

A morte é a prova mais eloqüente da igualdade humana.

O perdão pressupõe o julgamento. Se não se deve julgar, perdoar não faz sentido.

Nunca ter dó das pessoas. A dó pressupõe uma superioridade que não existe.   Todos são capazes de superar as dificuldades.

Não julgar: acredito que seja a coisa mais difícil do mundo.

Perante a perda de um ente querido é comum se questionar:

-Por quê? Por que comigo? Que fiz para merecer?

Aquele que faz este questionamento está se considerando superior. Já emitiu um julgamento, analisado na parábola do grão de mostarda, que pode ser assim resumida:

“Tendo perdido um filho, a mãe saiu à procura de Buda, desesperada, esperando por um milagre. O mestre ordenou que lhe trouxesse uma semente de mostarda de uma casa que nunca tivesse tido uma perda familiar. E essa mãe saiu de casa em casa. Tendo percorrido a vila inteira retornou sem a encomenda, pois em todas as casas havia encontrado a morte de um ente querido. Disse-lhe o Iluminado: somos iguais. A morte é para todos. Está em todos os lares.”

Não se iluda com os muito virtuosos. Não se deve endeusá-los. O maior defeito se esconde e se camufla sob a grande virtude. Nem condene aqueles que apresentam grandes defeitos. Debaixo desta capa grosseira estão escondidas belíssimas qualidades. O que vem à tona é a face maravilhosa ou o lado terrível. Mas o homem é muito mais do que  aparenta.

Cada ser humano é formado por um entrelaçamento de defeitos e virtudes que se sustentam, formando um todo.

Não se deve julgar. Diante dos erros humanos, a atitude construtiva emerge da compaixão.

E o segredo do sucesso nas relações consiste em despertar no outro as qualidades que ele possui, muitas vezes, escondidas até dele mesmo.

-Entendeu o significado da compaixão?

-Percebeu a diferença enorme e sutil entre a doutrina cristã e a budista? Aquela prega o perdão. Esta não aceita o julgamento.

A humildade

A humildade consiste na aceitação das pessoas como elas são. Consiste em acreditar que os seres humanos sejam iguais.

Revirando meus escritos, descobri este texto:

“Para vencer as inúmeras barreiras, as imensas dificuldades, os incontáveis “inimigos” externos, primeiro, temos que nos fortalecer vencendo os internos, que são o ódio, a arrogância, a ignorância, o medo e a preguiça. A luta contra estes devastadores fantasmas explode dentro de nós. O ódio gera o desejo de vingança que destrói a nossa saúde, como uma serpente instalada em nosso íntimo, liberando a cada momento uma dose de veneno, causando-nos distúrbios e disfunções hormonais, provocando-nos o diabetes e doenças horrorosas de todos os tipos; a arrogância nos distancia dos familiares, dos amigos, dos empregados e colaboradores, bloqueando-nos a ajuda de terceiros; a ignorância nos conduz a caminhos errados; o medo nos faz recuar, escravizando-nos a alma, acorrentando-nos a fantasmas inexistentes; e, por fim, a preguiça bloqueia-nos a vontade, impedindo as nossas ações. Mas, as pessoas que acreditam no bem sofrem menos medo porque se sentem protegidas e amparadas pela fé; são também mais humildes e menos arrogantes, passando a receber ajuda da família, dos empregados e dos amigos; não são iradas nem rancorosas, diminuindo o nível de conflitos internos, de atritos e de doenças; têm mais amor e alegria de viver”.

O texto diz que a humildade atrai a ajuda das pessoas e que a arrogância bloqueia  qualquer socorro.

Este valor é pregado pelas grandes religiões. Também possui dois sentidos: um, cristão e outro, budista. Os cristãos entendem a humildade como a aceitação do sofrimento, como forma de expiação.  Cristo é o exemplo a ser seguido por ter aceitado o próprio martírio. O budismo substitui esta aceitação pelo agradecimento. Agradecer ao Criador as dificuldades pois, sem elas, não haveria crescimento. Quem não enfrenta obstáculos não cresce. Torna-se uma criança grande, sem força interior.

Este ensinamento de Sidarta Gautama[7], o Buda, que é  um dos quatro pilares desta filosofia oriental, é estampado  na QUARTA  VERDADE  NOBRE, que pode ser assim descrita:

“Na vida temos dois grandes mestres: o primeiro é a nossa mente; o segundo é a pessoa que mais nos fizer sofrer; este obstáculo nos dará a grande e única oportunidade de crescer; é a chance imperdível de desenvolvermos a paciência, mãe de todas as virtudes. É a grande oportunidade de reflexão, de busca do autoconhecimento, de mudança.”

Como diz o Dalai Lama, “este inimigo[8] é precioso”!

Buda ensina que não é necessário sofrer. O sofrimento é prejudicial à saude. Mas, é essencial agradecer ao criador a oportunidade de crescimento trazida pelo desafio que se apresenta.

A humildade facilita à conquista da felicidade. É alegre por se basear no agradecimento e na oportunidade de mudança. Quando se fundamenta na aceitação do sofrimento, como forma de expiação, é triste, humilhante, trazendo a resignação e a não evolução. Este inimigo que nos incomoda, que nos espezinha,  é  o nosso segundo mestre. Escancarada à nossa frente temos uma oportunidade de crescimento, de mudança. Sofrer, ter raiva é burrice, falta de compreensão.

Gandhi é o maior exemplo de humildade que conheço. Aceitava as pessoas com todos os seus erros, sem raiva, sem julgamento, mas externava com doçura sua opinião contrária, frente a frente, sem agressividade, de forma amorosa e sem medo. Cultuava a mansidão amorosa de Jesus e a coragem de Alexandre.

A Persistência e a Coragem

Lá pelos idos de 1984, eu me encontrava no Iraque, na casa de visitas da Mendes, em uma conversa muito amena com Dr. Murilo[9], na época, meu patrão. Era madrugada, lá pelas 3h. Naquele tempo, todos os voos a Bagdá eram noturnos. E eu tinha ido ao aeroporto buscá-lo. No silencio da noite, conversávamos calmamente, sem interrupções e sem sono, degustando uma taça de vinho.

A oportunidade desta conversa só poderia ocorrer ali, sob aquela circunstância.  No Brasil, ele seria tão solicitado, tão sem tempo…

Perguntei-lhe o que mais admirava em uma pessoa.

-Já observou aquele cão que não solta o osso? Que se agarra nele e o não larga mais? Pois é… eu gosto de gente assim.

Foi a resposta daquele homem que havia assinado contratos de mais de dois bilhões de dólares, a preço fixo, com o governo iraquiano, e lutava com todas as forças para cumprir os compromissos assumidos, sob uma guerra que elevava os custos, comprometia os prazos e minava a coragem.

A gente precisava de cães que não largassem o osso.

Desta forma, perante as dificuldades intransponíveis da guerra, sentindo na carne viva o peso das obrigações diárias, entendi a necessidade e o valor da persistência e da coragem.

A persistência e a coragem do grande Abraão Lincoln, venerado até hoje como um dos maiores líderes americanos.  Eleito Presidente aos 60 anos, apesar de uma série de insucessos: duas falências no comércio e seis derrotas eleitorais; do “desequilibrado” Thomas Edson, que, após milhares de tentativas fracassadas, persistia tentando inventar a lâmpada elétrica, numa época em que não havia, sequer, a eletricidade; de Santos Dumont, cuja loucura era voar.  Quantas vezes estas pessoas tentaram e falharam?

A coragem de Alexandre, o Grande, ao enfrentar Dario III, cujo exército era 6 vezes maior.

Alexandre (356 a.C-323 a.C) foi primorosamente educado por Aristóteles. Com o assassinato do pai, Felipe II, assumiu o trono da Macedônia aos 20 anos. Conquistou as cidades gregas e, depois, o Egito, que era uma possessão persa desde 525 a.C. Combate após combate[10], avançou sobre o império persa anexando as satrápias em terras do Líbano, da Síria, da Jordânia e de Israel. Tentando evitar o confronto, o Dario ofereceu-lhe a mão de sua filha Statira e todas as possessões a oeste do Eufrates. Mas Alexandre recusou. Evitando que o inimigo descesse o Eufrates, os persas destacaram um contingente de 7 mil homens comandados por Mazeu, Sátrapa da Babilônia, para atrair o exército macedônio a Gaugamela, planície que prepararam para o confronto. Dario tinha a seu favor uma absurda superioridade numérica de 6 para 1; uma tropa de elefantes; mais de 200 carros de combate e conhecimento detalhado do campo de Gaugamela, (perto de Mosul, antiga Nínive, no Norte do Iraque), do qual havia removido os obstáculos para facilitar a ação de seus veículos de combate. Mas, em 20 de setembro houve um eclipse lunar e este acontecimento nos céus foi interpretado pelos astrólogos babilônicos como sinal da queda do império e do grande rei. Este fato abalou o moral de Dario e de seus comandados. Assim, mesmo com esmagadora superioridade e o domínio completo do teatro de operações, Dario[11] temia Alexandre. Do lado macedônio, todos os generais consideravam loucura o enfrentamento. Alexandre[12] sabia que não tinha condições de bater frente a frente um exército de 247 mil homens. Mas percebeu que só precisava capturar o rei, pois se assim fizesse, os persas fugiriam em debandada. E, para capturar Dario precisava de surpreendê-lo pela retaguarda. O grande combate se deu em primeiro de outubro de 331 a.C, dez dias após o eclipse. Enquanto o exército principal atraía as atenções para um ponto, um general macedônio com 5 mil homens surpreendia Dario, em uma manobra considerada impossível por ser muito ousada. E o grande rei fugiu para o Norte. Na fuga prolongada foi assassinado por Bessus, um de seus sátrapas. O jovem de 25 anos derrotara o mais poderoso império do mundo.

A coragem de Gandhi, de Mandela. A coragem de ousar, fazendo o diferente, tentando o impossível. Impossível é tudo aquilo que as pessoas comuns não podem conceber. E quase tudo  no mundo é impossível pois há sempre um fraco desistindo dos objetivos mais simples.

Enquanto a persistência mantém a chama, a coragem dá vida à vida. Faz a diferença.

A Paciência

Sempre fui paciente. Enfrentar a Escola de Minas[13], no meu tempo, já exigia muita paciência. No Iraque os negociadores nos deixam horas a esperar para que percamos a paciência e o equilíbrio. Os impacientes fazem maus acordos. O meu recorde foi a negociação da obra do Sifão: depois de vencida a licitação, o contrato foi negociado durante 1 ano, onze meses e 22 dias[14], sem interrupções. A paciência viabiliza a remoção dos obstáculos. Muitos são resolvidos pelo próprio tempo.

Em Yaundé[15], na África, ouvi de Dr. Ulisses Guimarães, uma semana antes de sua morte: “impaciência é sinal de ignorância”.

Admiro a paciência do enxadrista e do pescador.

O Otimismo

Os realizadores pensam de forma positiva. A maneira positiva de encarar as dificuldades enobrece a vida, fortalece a auto-estima e o sistema imunológico, desperta a força interior, promove o crescimento, cria a prosperidade, a auto-realização, a saúde e a longevidade.

O pessimismo entristece, enfraquece o sistema imunológico, traz a má sorte, provocando a doença e a morte.

A fé e o otimismo são os  combustíveis da coragem. Tendo me formado na Escola de Minas, não pude evitar a equação:

Fé+coragem+persistência+ otimismo= força

A Cultura

Quem tem cultura vive mais e melhor. A ignorância só atrapalha, mata, fere, destrói. Impede a compreensão do mundo e das coisas. A cultura brilha, ilumina, fortalece o espírito. Em francês se diz “cultivé” ao invés de “culto”.

O enriquecimento cultural é a lapidação do diamante.

O Dalai Lama diz que a pessoa culta é mais feliz[16].

O Trabalho

Mente desocupada é oficina do diabo. Quem não trabalha, rouba, dizia meu pai. Rouba do pai, da mãe, dos irmãos, dos amigos, da comunidade…

Quem não trabalha não é útil, não realiza. Trabalhar é a melhor coisa que se pode fazer na vida.

O Presidente Tancredo Neves dizia que temos a eternidade para descansar.

A FELICIDADE

-E a felicidade? Onde está?

Vamos falar algumas palavras sobre este tema tão filosófico.

Há os que são atormentadas por mil demônios.

Outros são incrédulos como Fernando Pessoa: “Feliz é o outro. E o outro não é feliz”.

Mas, alguns possuem aguda  sensibilidade para distinguir o certo do errado, o bom do mau. Guiam-se pela intuição. E conseguem ser saudáveis, felizes, simples e longevos.

Por traz de cada pessoa há uma crença religiosa que determina a sua forma de pensar.

-O quê dizem as grandes religiões sobre a felicidade?

Segundo a religião judaica, a felicidade não existe. Assim, os judeus cultuam a alegria. Já é um avanço.

O cristianismo busca a salvação da alma. Considera que a felicidade existe no céu, após a salvação. A infelicidade seria a condenação eterna. Os cristãos cultuam o sofrimento como forma de expiação dos pecados. O exemplo a ser seguido é o de Jesus que aceitou o próprio martírio para resgatar os pecados do mundo. Considera-se que o pecado nunca é eliminado. Mas pode ser resgatado pelo sofrimento, pela mortificação tida como porta de entrada do perdão divino. Desta forma, concentram-se na busca do perdão dos pecados e a felicidade na vida terrena deixa de ser a preocupação mais importante.

O islamismo, criado no século quinto da era cristã, também considera que a felicidade está na conquista do paraíso, após o juízo final. A vida na terra seria uma oportunidade de purificação da alma, por meio do sofrimento.

Estas duas grandes religiões dominam a metade da população do Planeta. A felicidade cristã e islâmica está na eternidade, na conquista do paraíso.

No século XIX, Alan Kardec criou o espiritismo. Originada do cristianismo, esta crença, tão comum no Brasil, também cultua o sofrimento como forma de purificação. A Terra é considerada pelos espíritas como o planeta da expiação, para o qual as almas são enviadas para evoluírem.

Curiosamente, a filosofia budista procura a felicidade aqui, agora. E desenvolveu um método para minimizar o sofrimento, ao invés de cultuá-lo.

Sidarta Gautama era um príncipe. Foi criado em palácios. Seu pai tudo fez para afastá-lo de qualquer sofrimento. Já adulto, fugiu de seu ambiente e teve contato com o povo sofredor. Renunciou à riqueza, à família e saiu pelo mundo experimentando todas as crenças e filosofias religiosas que encontrou. Foi mendigo, asceta, se mortificou, mudou de vida várias vezes, até encontrar a iluminação. Criou uma filosofia para eliminar o sofrimento e buscar a felicidade. Transformou-se no Buda, o iluminado. Praticada principalmente no Oriente, não é expansionista. Apesar de mais antiga, deve ter cerca de 400 milhões de adeptos.

Os japoneses praticam uma mistura de budismo com crenças animistas de existência milenar.

Mas, de forma inata, todo ser humano procura ser feliz.

A Felicidade Interna Bruta

Veja o que Thomas Jefferson escreveu, em 1776, na Declaração de Independência dos Estados Unidos:

“… todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade.”

Mas os americanos têm confundido felicidade com desenvolvimento e bem estar social.

Por influência do pensamento oriental, o ser feliz está se tornando o grande objetivo das políticas públicas. Observe que a Organização das Nações Unidas implantou um índice que tem avaliado todas as regiões do Planeta: o IDH-Indice de Desenvolvimento Humano, bem diferente o PIB-Produto Interno  Bruto, que avalia o desenvolvimento econômico[17].

“Apesar de ser usado mundialmente para medir o desempenho econômico dos países, o Produto Interno Bruto (PIB) é um índice capenga. Destruir a Amazônia e transformá-la em móveis, pasto e plantação de soja, por exemplo, parece um bom negócio. Isso faz aumentar o PIB, pois ele só leva em conta a riqueza gerada pelos produtos, ignorando a perda dos recursos naturais e os desastres sociais que essas atividades provocam.  Há várias tentativas em todo o mundo de criar índices que possam medir o quanto uma sociedade está evoluindo, de maneira sustentável, na direção de proporcionar uma vida digna e confortável a todos os seus integrantes. Um deles é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), usado pela Organização das Nações Unidas, que leva em conta o PIB per capita, a longevidade das pessoas e sua educação (avaliada pelo índice de analfabetismo e pelas taxas de matrícula nos vários níveis de ensino). O IDH foi criado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq (1934-1998), que foi diretor de Planejamento de Políticas do Banco Mundial e organizador do primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, e pelo indiano Amartya Sen, que recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1998.”

“A antropóloga Susan Andrews lembra que o PIB dos Estados Unidos triplicou desde 1950, mas hoje uma em quatro pessoas é infeliz ou deprimida, o número de divórcios duplicou, o de crimes violentos quadruplicou e a população carcerária está cinco vezes maior. “Os americanos aumentaram sua riqueza, mas no processo perderam algo muito mais precioso – seu sentido de comunidade”.

“Mas foi no minúsculo Butão, país encravado na Ásia, aos pés da Cordilheira do Himalaia, que surgiu, há mais de trinta anos, o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB), que engloba não só o crescimento econômico, mas também as dimensões sociais, ambientais, espirituais e culturais do desenvolvimento. Na I Conferência Nacional sobre FIB, realizada no final de outubro, em São Paulo, Karma Dasho Ura, coordenador das pesquisas sobre a FIB no Butão, explicou como é composto esse índice: “Analisamos as 73 variáveis que mais contribuem para a meta de atingir o bem-estar e a satisfação com a vida”.

Essas variáveis estão abrigadas em nove itens gerais:

1. Bom padrão de vida econômico

2. Gestão equilibrada do tempo

3. Bons critérios de governança

4. Educação de qualidade

5. Boa saúde

6. Vitalidade comunitária

7. Proteção ambiental

8. Acesso à cultura

9. Bem-estar psicológico

Para Dasho Ura, “a felicidade das pessoas deve ser o objetivo das políticas públicas do governo”.

A pessoa feliz tem mais saúde, vive mais e é admirada.

Ninguém gosta dos infelizes.

A humanidade possui dois grandes algozes: a ignorância e a infelicidade. Nada mata mais do que estas duas pragas.

Mas ninguém é infeliz por desejo próprio. Perante os atormentados é necessário compaixão e ajuda.

Apesar de Jesus e Maomé não terem deixado uma filosofia para a  felicidade, pregaram o amor ao próximo. Com certeza, o amor é absolutamente necessário à conquista da felicidade. Quem não ama,        não tem saúde, nem longevidade. Quem ama o próximo não rouba, não mata, não briga…

E agora, caro leitor, vamos renascer? Se está dentro do poço e quer sair, primeiro, pare de escavar. Assim, pare de cultuar pensamentos negativos. Pare de recitar preces que cultuem o sofrimento. Se quer a felicidade, procure-a.  Primeiro, pelos estudos. O mundo moderno é o do saber. Existem várias correntes filosóficas, religiosas ou não, que estudam a superação do sofrimento. Certamente, encontrará muitas respostas. E siga a sua mente que é seu mestre maior. Outros podem dar uma pequena ajuda, não mais do que isto.

A caminhada é íntima e exclusiva de cada ser humano.

Boa viagem! Seja feliz!

Fidencio Maciel, abril de 2012.



[1] -Ferrovia Bagdad-Al Quaim-Akashat, de 500 km; e a section 10, um trecho de 128km da ExpressWay N0 1, no deserto de Tulaha, no estado de Al Anbar, em direção à Jordânia.

 

 

[2] Mohandas Karamchand Gandhi, (1869-1948) , advogado, nascido em Portbandar, Gujarat, India, chamado Mahatma, que em sânscrito significa “grande alma”, foi um dos idealizadores e fundadores do moderno Estado indiano e um defensor do princípio da não-violência. Raramente um líder teve tanto sucesso. Com a libertação da Índia o Império Britânico perdeu 1/3 de sua extensão. Seu exemplo serviu de inspiração para a criação da ONU e promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

[3] Carl Gustav Jung, (1875-1961),  médico suíço, professor de psiquiatria, pai da psicologia analítica.

[4] Nelson Rolihlahla Mandela (nascido em Xhosa, Mvezo, região de Transkei, em 18 de julho de 1918), é advogado, ex-líder rebelde e ex-presidente da África do Sul de 1994 a 1999, considerado como o mais importante líder da África Negra, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1993, e Pai da Pátria da moderna nação sul-africana.

 

[5] Refiro-me à SUTRA editada pela seita budista Seicho-no-Iê, de mestre Masaharu Taniguchi.

[6] www.dalailama.org.br. Tenzin Gyatso, Sua Santidade, o 14º Dalai Lama, prêmio Nobel da Paz em 1989, líder espiritual tibetano nascido em 1935. De 1957 a 2005 recebeu 85 prêmios honoríficos de universidades e instituições de todos os continentes.

[7] www.wikipedia.com- Siddhartha Gautama (563? a.C – 483? a.C) , o Buda, tambem conhecido como Shakyamuni, foi um príncipe indiano, líder espiritual e fundador do budismo.

 

[8] Sua Santidade, o Dalai Lama,  A ARTE DA FELICIDADE, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2002, p. 202. ‘Na realidade, o inimigo é a condição necessária para a prática da paciência”

[9] Dr. Murilo Mendes, da Mendes Junior International Company.

[10] Batalhas de Granico, de Issus e o cerco de Tiro.

[11] Freitas, Fidencio Maciel, APROPORÇÃO AUREA, www.africamae.com.br,  2009, p. 19: “Dario III era um homem de enorme crueldade: havia matado um filho com uma flechada; tinha matado uma irmã grávida com um chute no ventre; fizera enterrar vivos 7 pessoas influentes de sua corte; não era amado nem por seus familiares; combatia protegido, atrás das fileiras, e era temido em todo o império. Contrariamente, o grande macedônio combatia à frente e era idolatrado por seus comandados. O exército persa combatia por medo ou por dinheiro. O macedônio lutava por amor e glória.”

 

[12] Freitas, Fidencio Maciel, APROPORÇÃO AUREA, op. cit., pp. 17 a 20, “Gosto muito desta lição. Quando o problema que enfrentamos é muito grande, lembro de Alexandre: temos que fazer o impossível! E o impossível pode ser realizado porque impossível é aquela solução oculta… na qual as pessoas não acreditam por se mostrar tão evidente. Assim, um exército de 40 mil venceu um de 247 mil combatentes. Muita coragem, ousadia, muito preparo pessoal e profissionalismo dos comandados”

[13] Escola de Minas de Ouro Preto.

[14] Contrato de execução do projeto Main Outfall Drain, Euphrates Inverted Syphon, do Ministério da Irrigação do Iraque, no valor de 385 milhões de dólares (em 1985). Realizado em Nassirya, antiga Ur dos caldeus, terra natal de Abraão, Sul do Iraque.

[15] Yaundé, capital da República de Camarões, onde morei por alguns anos.

[16] Sua Santidade, o Dalai Lama,  op. cit. p. 257.

[17] www.dhnet.org.br

Da política e dos políticos brasileiros

“..porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar se mais houvesse…”

Há um crescente movimento de indignação no seio da sociedade brasileira devido ao comportamento antiético de nossos políticos. Regiamente pagos, ocupam-se principalmente de seus interesses, assaltando os cofres do Estado e praticando descaradamente o nepotismo. Seriam nossos homens públicos retrato fiel do povo brasileiro? Seria nossa gente, assim, tão desonesta? Nas linhas abaixo escrevo sobre o assunto, sem preocupação científica, como observador atento da trajetória de nossa sociedade. Continuar lendo

Bovinocultura de Corte

Fatores a serem considerados para escolha de uma raça

1-Objetivo

O objetivo deste é ajudar aqueles criadores que estão à procura de uma outra raça para implementar seu criatório. Que fatores devem ser considerados para a escolha de uma raça? Nas linhas abaixo procuramos dar uma luz para que cada um possa responder adequadamente à questão. Continuar lendo

CRENÇA – Aprendendo a ser feliz

CRENÇA

Aprendendo a ser feliz.

Muitos me perguntam se tenho alguma crença. Sim, tenho, mas não sou adepto da fé cristã, na qual fui educado.

O catolicismo foi imposto aos brasileiros do início da colonização, 1532, à proclamação da República, 1889. Todos eram obrigados à fé católica[i] e os fiéis tinham que freqüentar as igrejas sob pena de prisão e multas pecuniárias.

Veja este texto de Dimas Perrin, citado em Mãe África:

“Durante o jugo português, em Minas, a polícia estava em todas. Servia até para punir aqueles que não cumprissem bem os seus deveres religiosos, como se depreende do seguinte edital, publicado já no fim do século XVIII, pela Câmara de São José[ii]: Fazemos saber a todos os moradores desta Villa que no dia quinta feira que se ade contar 3 deste corrente mez se ade festejar ou fazer função de Corpo de Deos como sempre he costume com procissão pellas ruas e para milhor ornato da mesma terão todas as ruas aseadas com as suas portas e janelas ornadas com aquelle aseo e adorno que lhes são permitidos com a pena de que aquelle que assim não o fizer será prezo oito dias na cadeia e pagará duas oitavas de ouro de condenação para as despezas do Conselho, etc. Passado em 1 de junho de 1799”

-Por que esta obrigatoriedade, nas colônias portuguesas e espanholas? Continuar lendo

O Ouro, o Negro e a Mineiridade.

Minas Gerais foi “descoberto” por volta de 1700: Sabará, em 1688, por Borba Gato, egresso da Bandeira das Esmeraldas; Ouro Preto, em 1696, por Antonio Dias; Pitangui, em 1694, por Antonio Rodrigues Velho, o Velho da Taipa.

Antonio Rodrigues Velho, irmão de Domingos Jorge Velho que destruiu o quilombo de Palmares; casado com Margarida, neta de Fernão Dias e avô de Inácio de Oliveira Campos, marido de Dona Joaquina do Pompeu[1]; dele descendem grandes mineiros: Martinho Campos, Olegário Maciel, Milton Campos, Benedito Valadares, Gustavo Capanema, Francisco Campos, Afonso Arinos e outros.

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“Você sabe com quem está falando?”

Em nosso meio, ainda é comum encontrarmos esta frase nos lábios de pessoas que se julgam poderosas. O Fulano estaciona o carro em local proibido, vem o guarda de trânsito e solicita a retirada do veículo. O cidadão persiste e o oficial diz que é contra a lei.

-“Você sabe com quem está falando?”

Ou seja, o infrator considera um insulto à Sua Excelência o fato de também ter que obedecer a lei.

É o preconceito social, enraizado no Brasil, herança portuguesa potencializada pelo regime escravocrata ao qual estivemos submetidos durante 3 séculos.

Vejamos.

O Brasil foi descoberto em 1500. A colonização teve início em 1532 e o primeiro navio negreiro chegou a Recife em 1548. A abolição se deu em 1888. São mais de três séculos de escravidão. Como o País é muito grande e o trabalho braçal era inteiramente realizado por cativos, podemos considerar que fomos líderes mundiais em servidão humana. A frase é dura mas é real. Cem por cento de nossa produção era realizado por trabalho escravo. O colonizador não executava trabalhos manuais. Ao bom português, era indigno trabalhar com as mãos.

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Impunidade: entre o perdão e a espada

Acredito que, nos dias atuais, todos os brasileiros estejam revoltados com o fenômeno da impunidade que assola o País. A nossa Justiça, quando age, o faz tão lentamente, e as penas são tão leves, que parecem ser de caráter simbólico. Vemos seqüências de crimes hediondos não serem punidos. Assassinos confessos soltos à luz do dia após serem libertados sem julgamento. Os argumentos contidos na lei são usados para proteger os maus, enquanto os bons são enjaulados em casa, atemorizados pela barbárie do império da violência.

-De quem a culpa? Da justiça? Da polícia? Das nossas leis muito benevolentes? Dos políticos?

Não temos sido capazes de aprender com outros povos. Quando voltamos o olhar para outros países, enxergamos apenas a Europa e a América do Norte. Não somos capazes de olhar o Oriente Médio, a África e a Ásia. Não temos humildade para considerar essas culturas como fonte de ensinamento. Consideramo-las inferiores. Assim, procuramos copiar americanos e europeus, ou criticá-los por sua impiedade para com os delinqüentes. Desta forma, nem temos copiado nem criado soluções eficientes para a impunidade que nos assola.

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